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Testemunho verídico de Liliana
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Fui uma criança muito pobre, criada por uma mãe analfabeta, mas de uma grande clareza de idéias, uma mulher à frente do seu tempo.
Não me lembro de ter ouvido ou visto minha mãe criticar as pessoas que faziam parte da nossa vida.
Minha mãe aprendeu, ainda quando era moça, a ler as cartas e acertava muito. Não sei se acreditávamos induzidos apenas pela crença, ou se tudo calhava, mas que ficávamos felizes ou tristes com os acertos, isso ficávamos. E como a cidade em que morávamos era pequena, tudo passava de boca em boca, e eu fui criada vendo minha Mãe esporadicamente ler as cartas para amigas, para desconhecidos enviados por outros amigos, etc.
Dentre as pessoas que a minha Mãe tinha como clientes fieis, estavam as mulheres que naquela época chamávamos de “mulheres da zona”, ou seja eram prostitutas e eram recebidas pela minha mãe com todo o respeito.
Lembro-me que víamos ao longe aproximar-se da nossa casa uma “charrete”, nem sei se a palavra existe, mas era um carrinho alto puxado por um animal. Elas só andavam neste tipo de locomoção. Se víssemos uma “charrete” na rua, sabíamos que era uma prostituta.
Bem, quando víamos uma charrete se aproximando da nossa casa, sabíamos que era uma “mulher da zona do meretrício”, que estava chegando para ler as cartas com minha mãe. Eu chamava minha mãe que as recebia com o maior respeito e eu via claramente nos olhos delas como gostavam dela.
Iam para um cômodo qualquer da casa e minha mãe lia as cartas. Terminavam, elas davam alguns trocados para minha mãe e iam embora felizes ou tristes.
Hoje eu sei que, o que mais me marcava naqueles encontros eram por exemplo: o respeito com que elas chegavam, o respeito com que eram recebidas pela minha mãe e a discrição que elas faziam questão de ter. E mais que isso, quando vislumbrávamos aquela charrete, sabíamos que pelo menos naquele dia não passaríamos fome, pois elas eram muito generosas com minha mãe. Quando não davam dinheiro vivo, levavam alimentos, pois sabiam da nossa vida miserável. Aquilo para nós era uma festa. Só quem passou por privações assim sabe valorizar atitudes como aquelas.
Minha mãe nascida e criada em uma cidade do interior onde tudo é criticado e proibido, onde a maior ou única diversão dos moradores é criticar alguém, tinha a grandeza de tratar aquelas mulheres com o mesmo respeito que ela dispensava a qualquer outro ser humano. E nos ensinou com atitudes assim a respeitar o outrem.
Mesmo depois de velha, já mais esclarecida ela só fez aprimorar essa visão da vida. Acho que aprendi isso com ela. Aprendi com minha Mãe que não temos o direito de criticar, de vilipendiar, de nos colocarmos acima. Aprendi que só quem viveu ou passou por determinada situação sabe o valor ou o peso do que viveu. Aprendi com aquela mulher analfabeta, valores que não aprendemos nas escolas e hoje faço questão de repassar ao meu filho. Não permito que ele ria dos mais feios, dos mendigos, dos homossexuais, não deixo que ele faça das desgraças dos outros um motivo de riso. Aprendi e repasso isso.
Eu trabalho em uma empresa muito grande e o que mais tem são comentários de todos os níveis e origens, dá para se ter uma idéia do que se comenta por ali? Então eu costumo dizer quando estão criticando alguém: Deus deu para cada um de nós apenas uma vida, e essa já é difícil de cuidar. Se formos cuidar de mais outras vidas vamos acabar esquecendo a nossa.
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